14 estudo para - aurora e os sete meios anões
tocou à campainha
- olha - hortense - cuidar da nossa vida tem muito que se lhe diga---já sem falar de todos os que pensam que da nossa vida podem cuidar
tomava o café - metade café metade chicória - era assim.. mas estava quentinho - já sabia bem uma chicória quentinha - nunca tinha perguntada a hortense porque fazia uma cafeteira tão grande - de chicória - logo de manhã
- então e o pereira - não está em casa?
- saiu e ainda não voltou - o melhor mesmo - era que nunca mais voltasse... - hortense nem reparava no que dizia - ia dizendo - soltando os recônditos da alma que se diz ter - assim sem se aperceber
- então? - que nunca mais voltasse!? e depois para quem é que fritavas estes pastéis todos?!
- disparate! - não ligues - estava a vaguear... - olha passa-me o tabuleiro de metal - esse que está mesmo aí - queres um pastelinho? como café?
- não - hortense - obrigada mas não tenho fome de nada - guarda-os que o pereira deve estar a chegar... - enquanto mexia o café pensava que a vida assim seria - metade café - metade chicória (!?)
- e não queres ficar para jantar?
- não - obrigada - vou andando - vim aqui só conversar um bocadinho - mas olha - também não disse nada de jeito!
- é sempre bom quando tocas à campainha...
saiu - na escada tentou não pensar no aspecto que toda a gordura se encarregava de dar à casa de hortense
seria da chicória? aquele ar encardido...?
correu para o espelho que estava à entrada da porta - olhou - olhou - olhou - e gostou de saber que a chicória ainda não a tinha pintado - era branca como a cal - uma aurora de neve...
tmq
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